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Bibliotheca da Renascença
por
Nenhum de vós ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece…
Ninguem sabe quem sou… e mais, parece
Que ha dez mil annos já, neste degredo,
Me vê passar o mar, vê-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece…
Sou um parto da Terra monstruoso;
Do humus primitivo e tenebroso
Geração casual, sem pae nem mãe…
Mixto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanaz;—talvez um filho
Bastardo de Jehová;—talvez ninguem!
Dixit insipiens in corde suo: non est Deus.
Sae das nuvens, levanta a fronte e escuta
O que dizem teus filhos rebellados,
Velho Jehovah de longa barba hirsuta,
Solitario em teus Ceus acastellados:
«—Cessou o imperio emfim da força bruta!
Não soffreremos mais, emancipados,
O tyranno, de mão tenaz e astuta,
Que mil annos nos trouxe arrebanhados!
Emquanto tu dormias impassivel,
Topámos no caminho a liberdade
Que nos surriu com gesto indefinivel…
Já provámos os fructos da verdade…
Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrivel,
Não passas duma van banalidade!—»
Mas o velho tyranno solitario,
De coração austero e endurecido,
Que um dia, de enjoado ou distrahido,
Deixou matar seu filho no Calvario,
Surriu com rir extranho, ouvindo o vario
Tumultuoso côro e alarido
Do povo insipiente, que, atrevido,
Erguia a voz em grita ao seu sacrario:
«—Vanitas vanitatum! (disse). É certo
Que o homem vão medita mil mudanças,
Sem achar mais do que erro e desacerto.
Muito antes de nascerem vossos paes
Dum barro vil, ridiculas creanças,
Sabia eu tudo isso… e muito mais!—»
Esse negro corcél cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me apparece
Da noite nas fantasticas estradas,
Donde vem elle? Que regiões sagradas
E terriveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?
Um cavalleiro de expressão potente,
Formidavel, mas placido no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a féra extranha sem temor.
E o corcél negro diz: «Eu sou a Morte!»
Responde o cavalleiro: «Eu sou o Amor!»