ANTERO DE QUENTAL
CONSIDERAÇÕES SOBRE A PHILOSOPHIA
DA
HISTORIA LITTERARIA PORTUGUEZA
(A PROPOSITO D'ALGUNS LIVROS RECENTES)
2.ª EDIÇÃO
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
LELLO & IRMÃO, EDITORES
1904
Porto--ImprensaModerna
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Foi publicado originariamente este pequeno trabalho em folhetins no jornal o«Primeiro de Janeiro». Parecendo, porém, a algumas pessoas de gosto que havianas minhas considerações verdade e justiça sufficientes, e que valeria a pena,por isso, dar mais alguma circulação ás idéas emittidas, resolvo-me, parasatisfazer ao voto d'essas pessoas, a imprimir á parte estas paginas,accrescentando-lhes algumas observações, suggeridas pelo escripto do snr. M.Pinheiro Chagas, «Desenvolvimento da Litteratura Portugueza», que só pude vêrdepois de publicados os folhetins.
A. de Q.
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A philosophia das litteraturas é uma criação do nosso seculo, cujo genio, aomesmo tempo subtil e profundo, se revela sobretudo nos estudos historicos, e aque um mixto particular de enthusiasmo e scepticismo, de erudição e intuição,dá uma singular facilidade para penetrar o caracter das varias raças, oespirito das varias idades e civilisações.
Uma maneira mais intima e juntamente mais larga de comprehender a humanidadee o individuo, que caracterisa o pensamento moderno, explica esta especie decondão magico com que o nosso seculo tem aberto os recessos obscuros, em que aalma dos tempos antigos parecia haver-se para sempre sepultado, defendida pelosilencio e pelo mysterio.{8}
Com effeito, em quanto se não viu, por um lado, na humanidade um todovivo, cujos movimentos são determinados por leis naturaes e constantes, emboracomplexas e obscuras, e, por outro lado, no individuo, dentro da humanidade,uma força, não caprichosa, mas coherente, embora livre, e cujas manifestaçõessão todas respeitaveis e legitimas, tendo todas a sua razão de ser e o seuvalor; em quanto, sobretudo, se não comprehendeu que os momentos da historianão são contradictorios entre si, mas representam varios termos d'uma serie poronde o espirito humano, ascendendo, se affirma, transformando em parte ascondições do meio em que se move, e em parte subordinando-se a ellas, eque, por isso, esses momentos não devem tanto ser julgados comocomprehendidos; em quanto este ponto de vista, ao mesmo tempo idealistae scientifico, se não estabeleceu--a historia critica, intima, psychologica,era impossivel, e impossivel tambem a philosophia da historia.
É por esta razão que a critica e historia litterarias soffreram em o nossotempo uma completa e profundissima renovação, e que a historia philosophica daslitteraturas só recentemente se pôde constituir.<