A SAUDADE,

CANTO ELEGIACO
NA MORTE
DO
VIRTUOSO E BENEMERITO JOVEN

João Alvares d'Almeida Guimaraens.

POR

H. E. A. C.

Ilustração 1

PORTO

TIPOGRAPHIA COMMERCIAL.
Rua de Bello-Monte n. 57.
1847.





DUAS PALAVRAS DO AUCTOR

A morte do joven portuense João Alvares d'Almeida Guimarães foi perda mui real e consideravel não sómente para a sua familia e amigos, mas ainda para o ensino público e para a litteratura. Unia elle bom cabedal de talentos a bem fornecido peculio d'instrucção bebida em salutares mananciaes; por quanto a mais leve mácula d'irreligião, a mais esvaida tinctura de cynismo, lhe eram sobejo motivo para abandonar começadas leituras, e romper toda a communicação com auctores eivados de similhante lepra, e que, na esperança talvez de mais avultados lucros ou de maior celebridade, inculcam theorias que a experiencia desmente, ou lisonjeam paixões que muito conviria refrear. Joven nos annos, ancião na prudencia, não pagava fôro á presumpçosa insania d'um seculo legitimador de todas as illegitimidades, atrozmente corrupto e corruptor. Todavia recatava este joven suas raras virtudes e preciosos talentos sob o véo da natural modestia; e por isso, para ser bem avaliado, havia mister conhecido e tractado de perto. Coube-me essa dita, e são para mim de saudosa recordação tantas noites que passamos embebidos em serio estudo, ou, por vezes, em colloquio amigavel. Quando em mim a fragil natureza ceder ás instigações da vaidade, exclamarei na fôrça do meu enthusiasmo: João Alvares d'Almeida Guimarães foi meu discipulo e amigo!




A SAUDADE.





A SAUDADE.

CANTO ELEGIACO.

Celasti alti desir sotto umil verte;
Negasti albergo ai torti umani affetti:
Non so s'angel terreno, od uom celeste!

L. Guidiccioni.

Teus arcanos, ó Deus, se ao mundo roubas
Assim tam cedo um exemplar prestante,
Nunca os penetrará sciencia humana,
Por mais lucubrações que accesa aguante.

Eira espaçosa despojar do trigo,
E ingrato joio estreme só deixar-lhe,
Ah! é mysterio que gemendo adoro,
E a ti compete a profundez palpar-lhe.

Quanto nos foge rapida ésta vida,
Esta folha autumnal que, exposta ao vento,
Entre o ser e o não ser definha inutil,
Se na seiva moral não tem sustento!

Altos decretos teus!... Mas ah! permitte,
Permitte um ai, Senhor, á natureza;
Que inda o vibrado golpe me resôa
No fundo d'alma, abysmo de tristeza.

Teu Filho associou lagrymas suas
Ás lagrymas de Martha e de Maria,
E acordou-lhes o irmão, que sob a lagem
Ferreo somno de morte já dormia.

E não chorarei eu?... A dor, o pranto,
São legado fatal que remanece
Imposto por Adão á prole infausta;
Só do stoico a vaidade o desconhece.

Pela etherea amplidão agora estende
Seu negro manto a noite taciturna,
E me vê, n'este aos mortos grato asylo,
Cingir d'affecto veneranda urna.

N'ella jaz (só extincto coube n'ella)
Um coração magnanimo, que todo
A sabor seu formaram as Virtudes,
Quasi sem liga de terreno lôdo!

Sim, Jonelio em seu peito recatava
Sublime coração, alma sublime,
Velados de modestia amplos thesouros
De que o valor em vozes mal se exprime.

Era lampada accesa reluzindo,
Sem nunca esmorecer, no templo sancto
...

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